O meu ponto de vista

Fevereiro 04 2014

Ela é assim. Apesar de não possuir pós mágicos nem varinhas de condão, encerra em si, contudo, uma onda constante que a faz arregaçar as mangas e, movida pela paixão, dá forma ao sonho. E nem as notícias económicas mais austeras lhe enfraquecem o ímpeto de ir mais longe. Até que, como diz, os tempos que vivemos incitam à acção e não à conversão, sem com isto aludir à sua catolicidade que muito preza. Gosto dela assim!

Uma das suas frases favoritas é “o meu algodão não engana: é reciclável”. Vê beleza em quase tudo o que a rodeia, gostando de comida saudável e, simultaneamente, detestando o take-away – então o catering nem é bom falar -, assumindo um respeito quase sagrado pela vida. O chic e as tendências ditadas pelo marketing aborrecem-na, tirando-a do sério, como costuma dizer.

Enganem-se, porém, se pensam que esta forma de estar foi algo de repentino. Não, ela sempre foi assim, explicam-me os amigos. Por exemplo, a decisão que tomou aquando do seu divórcio: mudou de casa e, na hora de repartir os bens, verificou que tinha muito mais do que precisava. Não esteve com meias-medidas e deu imensas coisas - o que deixou muito feliz - a quem, verdadeiramente, necessitava. “Para quê ter quatro cobertores se necessitava só de dois?”, ainda hoje repete. “As coisas são efectivamente apenas coisas”, afirma com desprendimento e um sorriso que me encanta.

Disse-me o outro dia que “o caminho é para ser percorrido, não é destino”. Desconfio que a frase não é da sua autoria, mas gostei e nada lhe disse. E é deste modo, singelo e puro, que me tem iluminado a vida.

publicado por Hernani de J. Pereira às 19:30

Outubro 29 2012

Infelizmente, hoje em dia, a probabilidade de um casamento terminar em divórcio é muito maior do que o mesmo durar para toda a vida.

Por isso não admira que alguns países, numa tentativa de facilitar(!!!) a vida às pessoas e, sobretudo, evitar o congestionamento desagradável dos tribunais relativamente a processos de divórcio, pensem em alterar a respectivo código civil com vista à introdução da figura do casamento a termo certo. Um contrato renovável, mas não automaticamente, após um período de casamento temporário, que pode contemplar, desde o momento da sua assinatura, todas ou quase todas as condições de que se possam lembrar, a começar pela guarda dos filhos que eventualmente vierem a ter e respectiva pensão de alimentos, divisão dos móveis e imóveis, entre tantos e tantos outros itens.

Os proponentes que anunciaram esta intenção de alterarem a lei, com base em estudos e inquéritos, acreditam que os casamentos assim contratualizados possam durar mais, serem mais harmoniosos e gerarem muito menos divórcios ou, pelo menos, facilitarem as rescisões por mútuo acordo sem sobressaltos ou grandes inquietações.

Não estando de acordo com a presente ideia, por motivos de ordem religiosa, não deixo de atribuir à mesma alguma pertinência. É que, para sermos felizes, não é obrigatório sermos bem-amados, desde que não se chegue ao extremo de sermos mal-amados. Neste último caso, tal como ninguém quer dinheiro malparado, é preferível estar só.

publicado por Hernani de J. Pereira às 19:51

Outubro 25 2012

Fazia parte do sistema de abastecimento de água a pomares e hortas, no prolongamento de quintas que em tempos existiram por aquelas bandas. Por ali também existiu uma pequena estrutura de moagem, assegurada por moinho de água. Hoje, é um dos locais com maior potencial e mais pitoresco, revelando enorme potencial e crescente procura, graças à multiplicidade de acessos e equipamentos de importância maior.

Por entre a multiplicidade de canais, eis que surge a preocupação de base presente desde o início da edificação. A casa apalaçada, inserida e realçando a presença nobre da água, acentuou a linguagem naturalista, de modo a garantir a tranquilidade zen que tanto se deseja quando se está em casa. O privilégio do uso de materiais nobres como a pedra natural bujardada e a ardósia negra realça a incorporação de sentimentos e vivências de um equilíbrio salutar.

Neste início de Outono, em que as noites frias convidam a outros ambientes, reacendeu-se, mais uma vez, a lareira, prática que anualmente, por esta época se repete. Pessoas cosmopolitas como eles, sem compromissos, longe do bulício citadino, eis que, depois de um belo jantar, enquanto apreciavam um bom cognac Hennessy e ouviam o crepitar da madeira a arder, acompanhado pela música de Cristopher Cross, em The Best That You Can Do, a racionalização deixou de fazer sentido, e até à cedência das emoções foi um instante. Os corpos uniram-se, a roupa tornou-se um empecilho e os dois, na sua amplitude, fizeram usufruto do espaço e de um tempo infindável.

A ânsia era tanta e a resposta ao desejo há muito reprimido foi tal que da noite fizeram dia, imergindo um no outro, como se procurassem algo impulsionado por um sentimento autêntico, impelindo o êxtase para patamares jamais alcançados. As “voltas da vida” fizeram o milagre da multiplicação de tendências e já era noite alta quando a cedência deu lugar ao sono.

publicado por Hernani de J. Pereira às 21:04

Junho 22 2012

Andavam distraídos, passeando à beira-mar, alheados de tudo e de todos, cada um mergulhado nos seus próprios pensamentos. Nem a forte agitação marítima e o grasnar incessante das gaivotas os despertava do torpor que os tinha assaltado. Vagueavam por ali, como podiam andar a vaguear por qualquer outro lado. O silêncio entre ambos sobrepunha-se, ruidosamente, ao som que os rodeava.

Num ímpeto, quase de supetão, disse-lhe ela:

- “Sabes, sinto-me desmotivada, quase infeliz, ansiosa e, pior que isso, com uma frustração crescente”.

Ele olhou-a, longamente, como se estivesse a vê-la pela primeira vez, fez um leve trejeito com os lábios, como que fosse para dizer algo, mas, quase de imediato, como se estivesse com receio, a boca voltou a cerrar-se e nada proferiu.

E o caminhar, penoso, a contragosto, avançou naquele fim-de-dia, fazendo com as marcas dos seus pés ficassem, cada vez mais, impressas na areia molhada, quase parecendo que, de repente, os seus corpos tivessem adquirido o dobro do peso.

O silêncio doía-lhe de tal modo que quis adiantar algo que suavizasse o ambiente. Contudo, notando no rosto dele uma mudança de humor, nada acrescentou e, apenas, intuiu para si própria que a relação não apresentava perspectivas de evolução, para além de, por vezes – mais das que gostaria -, o relacionamento se tornar difícil, isto para usar uma expressão benévola.

Passados uns minutos, que mais pareceram horas, ele pegou-lhe no braço, obrigando-a a olhá-lo de frente, e disse:

- “Não calculas como te compreendo! Bem sei que outra atitude faria milagres. Porém, a paixão não se compra, nem o relacionamento pode ser um meio-termo e, por isso, é tão difícil de alcançar.”

E, num arrojo, continuou:

- “Bem sabes que são vários os factores que podem levar ao caminho de saída, do abandono. A desmotivação e a insatisfação são as principais, mas existem outros. O segredo está – uma vez interiorizada a convicção de que a mudança é o único passo possível – em saber fazer da saída um aspecto positivo.”

publicado por Hernani de J. Pereira às 22:24

Análise do quotidiano com a máxima verticalidade e independência possível.
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