O azul, sempre foi associado ao espírito e ao pensamento, simbolizando lealdade, fidelidade, personalidade e subtileza. Remete para o sonho e para o ideal.
Por isso, Teresa tanto gostava do rio que corria, lá ao fundo, do quintal de sua casa. Bem, a verdade é que não era só do rio, pois também gostava imenso do azul do céu, principalmente nos dias em que se apresentava limpo, ausente dos vapores suspensos que ocultavam a sua tão singular cor.
Mais tarde, Teresa, recorda outro momento em que outro azul tanto a cativou: o azul do mar. Sim, lembrava-se, tal como se fosse hoje. Era já uma menina feita, nos seus dezasseis anos, quando, à beira-mar, o viu pela primeira vez, quando os seus olhares se cruzaram. O coração pulsou mais forte e o sangue correu mais veloz, fazendo-a corar, mais que alguma vez acontecera. Não, que já não tivesse reparado nos olhares que os rapazes lhe lançavam, principalmente quando, na companhia dos pais, ia à feira, a Penascada, mas este foi diferente, foi um je ne sais pas.
Quando o viu pela primeira vez, achou que precisava de levar, em si, alterações profundas, que lhe dessem uma nova estética, uma outra imagem. Teve a nítida sensação que uma mudança radical no seu modo de ser e agir era necessária, pois sentia que alguma opacidade e, acima de tudo, uma forma labiríntica de viver, até aí tão normais, a aprisionavam. Havia que transformar-se, rasgar paredes e deixar entrar outra luz.
E Francisco? Como era? Lindo como o rio, como o céu e como o mar. Ainda hoje sente um arrepio ao recordá-lo e não é sem alguma emoção que recorda o rapaz citadino, sofisticado e bonito, no dizer de toda a gente com quem se cruzava. Proveniente de famílias com pergaminhos, onde o título nobiliárquico era ainda palavra frequente, estudava no Liceu Carlos Alberto e, até aí, com excelente aproveitamento. Também não admira, pois apesar de ser muito requisitado pelas meninas da mais selecta sociedade portuense, nunca se lhe conheceu qualquer devaneio nesse âmbito. Sua mãe, Joana d’Arminho, mas fundamentalmente, sua tia e madrinha de baptismo, Helena d’Arminho, por todos tratada por Menina Helena, senhora de já provecta idade e ainda solteira, por isso velavam.
No alto do seu metro e oitenta, mais velho que Teresa um ano, com a cara sempre bem escanhoada, onde começava a pontuar um bigode fino, como era costume nos idos tempos da década de quarenta do século passado, Francisco era, numa palavra, aquilo que se pode dizer como “um bom partido”.
(Continua)