O meu ponto de vista

Dezembro 05 2004
Ex.mo Senhor Prof. Doutor


Face ao grave momento político, atrevo-me a escrever-lhe esta carta aberta. Assim, como introdução relembro a V. Exª, em termos de retrospectiva, os passos mais importantes do curto reinado de Pedro Santana Lopes (PSL):

 Alteração da orgânica governamental, mudando ministros a seu belo prazer, mas sem aproveitar os melhores;
 Rodeou-se de amigos sem esquecer mordomias;
 Logo na tomada de posse o inesperado aconteceu: discurso desconexo, ministros que o foram sem o saberem antes (Assuntos do Mar) e danças de secretários de estado (Combatentes/Cultura);
 Transição, de um dia para o outro, de um clima de austeridade para o desafogo, como que por milagre;
 Descoordenação governamental: Casos GALP (N. Guedes versus Álvaro Barreto), descida de impostos (Bagão Félix versus Santana Lopes); etc.
 Comunicação social, com os casos de Marcelo Rebelo de Sousa, RTP, RDP, DN e LUSA;
 Comunicado sobre a sua eventual sesta;
 Adiamento de tomada de posse de governantes para comparecer no casamento da filha da sua chefe de gabinete, invocando, para isso, dificuldades de agenda;
 Remodelação de ministros quando se esperava apenas de secretários de Estado, sem que alguns daqueles soubessem, levando a que a respectiva tomada de posse fosse mais um momento alto de desconsideração geral;
 Ministro e amigo de longa data que se demite após 4 dias da tomada de posse, escrevendo uma carta com os epítetos que todos conhecemos.
 Sectores económicos que não se coibiram de afirmar alto e bom som que preferiam eleições à falta de estabilidade provocada por PSL;
 Igreja a afirmar que temos políticos mas não políticas;
 Alusão a que o governo era como um bebé na incubadora, originando que se concluísse que aquele tinha nascido mal.
A lista anterior é só um resumo. A mesma poderia ser muito mais extensa, pois só peca por defeito. No entanto, espelha a falta de sensatez, a inexistência de estadista, a demonstração cabal daquilo que é um mau gestor, cujo sentido de responsabilidade não vai mais longe do que as "Docas".

Ora, esta apreciação leva-me a levantar uma série de questões pertinentes:
• É este o homem que queremos para governar o nosso país?
• Com os exemplos acima citados, é possível aclamá-lo em campanha eleitoral?
• Como dizer às pessoas que P.S.L. é um líder para governar 4 anos quando em 4 meses não poderia ter feito pior?
• Quem se atreverá a fazer campanha com ele? Os mesmos que durante estes 4 meses o rodearam? E onde estarão Marques Mendes, Leonor Beleza, Teresa Patrício Gouveia, Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa, etc.?
Nesta ordem de ideias, não concordando com a análise de alguns observadores, os quais pensam ser conveniente que PSL caia em desgraça pelo seu próprio pé, face à previsível derrota nas próximas eleições, para depois regenerarem o partido, sou de opinião de que se deve promover, desde já, uma vaga de fundo de modo a fazer com que apareça alguém, não como salvador da pátria, mas como galvanizador das energias do PSD e que consiga arrastar este país para a senda do trabalho, da iniciativa, da responsabilização, isto é, rumo ao progresso.

Como certamente observou houve um nome que, de forma propositada, anteriormente não citei: o de V. Exª. Reconheço que é extremamente difícil demovê-lo para que volte à vida partidária, mas já tenho alguns anos e, por isso, sei que, em política, não existem impossíveis.
Porém, creia que muitos existem a pensar como eu, ou seja, é necessário que V. Exª se consciencialize de que o país necessita muito mais de si como primeiro-ministro do que como Presidente da República. A este propósito, tomo a liberdade de lhe pedir que leia, se ainda o não fez, o artigo interessantíssimo do insuspeito António Barreto, publicado no “Publico” de 2004-12-05.
Senhor Prof., tenha a certeza absoluta que o sentimento das bases é este: esperam ansiosamente alguém que lhes proporcione garantias de ponderação, estabilidade e, acima de tudo, sentido de estado. É que, no fundo, sentem-se órfãos e temem de volta o “pântano” guterrista, agora revisitado de novas roupagens.

Esperançado no regresso, mais ou menos imediato, de V. Exª queira, entretanto, aceitar os protestos da mais alta consideração.


Hernâni de J. Pereira
publicado por Hernani de J. Pereira às 23:01

Análise do quotidiano com a máxima verticalidade e independência possível.
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