Acordar depois de uma noite que correu mal é como participar num daqueles jogos de sobrevivência, mas sem prémio em dinheiro. O prémio, neste caso, é sobreviver ao próprio corpo que, de repente, decidiu virar o inimigo.
Primeiro, abre-se os olhos com cuidado, porque qualquer raio de luz é comparável a um holofote da polícia apontado à cara. Depois, vem a boca seca: é como se tivesse passado a noite a mastigar areia da praia. A água, nessa hora, não é bebida, é soro vital.
A cabeça, claro, bate num ritmo próprio. O coração toca jazz, mas a cabeça insiste num heavy metal descoordenado. Tomar um comprimido? Boa ideia. Encontrar o comprimido? Missão impossível.
A seguir, surge a fome. Mas não é fome normal. Quanto muito uma sopa ligeira, uma peça de fruta e vá lá uma saladinha. Talvez seja magia.
No meio de tudo isto, há o famoso mau-estar moral. O cérebro abre o arquivo da noite anterior e começa a passar os “melhores momentos”: a figura ridícula, o que se disse e não devia dizer, e aquele discurso filosófico sobre como os pinguins seriam ótimos condutores de autocarro.
E, inevitavelmente, a promessa final: “Nunca mais volto a ter uma noite assim.”
Promessa esta que tem a validade de um iogurte aberto fora do frigorífico: um ou dois dias, no máximo.
