Conta-se que foi para poder ver o nascer do Sol sem ter de se levantar da cama, na sua casa de Port Lligat, que Salvador Dali (1904-1989) terá inventado um jogo de espelhos.
Eu, com toda a franqueza, não almejo que em cada casa haja um jogo de espelhos. Bastava-me que existisse apenas um e que se não todas as pessoas, pelo menos a maioria, se olhasse ao espelho uma vez por dia. Não para fazer jus, através de um narcisismo exacerbado, às derivas e delírios de um surrealismo absurdo, mas para que se enxergassem minimamente e pudessem, deste modo, chegar à conclusão de que “do pó vieram e ao pó retornarão” (Génesis, 3:19).
O viver com défice relativamente ao ditado que diz “não faças aos outros o que não queres que te façam” é pouco aprazível. O tom fica demasiado carregado, parecendo, muitas vezes, que as porta e as janelas se encontram sempre cerradas. A optimização fica diminuída, o esquema funcional que, à priori, se quer simples, torna-se complicado e de modo algum responde às necessidades sentidas, chegando, inclusive, a não enquadrar novas soluções em que todos os elementos não tenham um carácter excepcional.
Álvaro Cunhal, em 2002, escreveu “Um partido com paredes de vidro”, no qual tentava, denodadamente, demonstrar que o PCP nada tinha a esconder, pois tudo era claro e cristalino como a mais pura das águas. Como é do conhecimento geral, apenas convenceu os já, há muito, convencidos, i.e., os convertidos à ortodoxia.
Aproveitando a ideia, e tentando fazendo alguma verosimilitude com o título daquela obra, não aspiro que as pessoas sejam inteiramente de vidro, onde nada possam esconder. Bem sei que coisas existem que nem às paredes se confessam. Contudo, há que colocar a tónica na energia pulsante que vem da confiança mútua, onde a máxima imperturbabilidade deve ser preservada. O recordar constante de reminiscências sem qualidade expressa bem a dualidade de conceitos que anteriormente aludi, originando a sensação de que a questão principal já não é como acabar a obra, mas como segurar as paredes entretanto edificadas.
Acredito, no entanto, que a (re)construção também se faz após o derrube de muros obsoletos e do (re)erguer de novas fundações. Por isso, não é de admirar que o sol tenha brilhado ontem e hoje, e amanhã ainda há-de brilhar mais. Isto sem olvidar que é muito natural que um dia destes volte a chover!