O meu ponto de vista

Outubro 08 2010

Teresa tinha uma predilecção especial pela sua casa. Em boa verdade, esta não possuía quaisquer luxos, bem pelo contrário. Contudo, apresentava-se constantemente “descomplexada”, com imensa luz e uma vista de suster a respiração, factos que a faziam estar permanentemente apaixonada pelo lugar que a tinha visto nascer.

A sua casa, cuja personalidade era mais fruto dos seus sonhos do que proveniente da realidade contrastante dos montes circundantes do Gerês, emprestava-lhe parte da sua história de vida. Daqueles montes e vales captava a beleza que colocava em nichos, quais altares a que devotava quase todo o sentido de vida. Mais tarde, outros sentidos despertaram, acrescentando novos valores.

Em si, os apetrechos e os enfeites não tinham grande valor. Todavia, Teresa dava-lhes um valor inestimável, pois estavam relacionadas com a sua vida, com o seu dia-a-dia e essa parte divertia-a imenso. O retrato de Santa Teresinha, sua protectora, era uma peça que serviu de molde à sua meninice, funcionando, ainda, como ícone pelo seu tamanho e cor. A maior parte dos artefactos – hoje classifica-os como pobres - eram na sua maioria adquiridos na feira que, de quinze em quinze dias, se realizavam no vizinho lugar de Penascada. As suas cores eram explosivas e o gosto mudava conforme a estação do ano, sem, contudo, exagerar na contraposição com as paredes despidas de qualquer reboco, quanto mais de pintura.

Perguntavam-lhe, por vezes, se gostava da sua casa. Nos seus verdes anos, propícios à ingenuidade natural da adolescência, respondia que sim. Reafirmava que não gostava de luxos, que queria uma casa como a sua, um tanto austera, cromaticamente falando, em pretos e ocres. Já naquela altura, pensava que o importante eram as pessoas e que os luxos, certamente, não deixariam centrar a sua atenção nas peças e arranjos que produzia e, sobretudo, temia que desviassem o seu coração para os maus efeitos que produziam. Era o resultado de uma religiosidade muito popular e fortemente arreigada por aqueles lugares.

Teresa, no fundo, era muito monocromática e adorava pegar em coisas, jogar com as ideias, as quais, já em si, eram componentes decorativos. E a vontade de seguir esta linha levou-a a centralizar a sua atenção em muitos dos objectos por si construídos, como por exemplo a colecção de ramos e pedrinhas. Visualmente mais marcante era a decoração conceptual que imprimia nas paredes do quarto – se é que lhe podia chamar quarto – que dividia com as suas irmãs mais velhas.

E, apesar de nunca ter visto mar, a sua adoração por tudo o que se relacionasse com a estética marítima dava-lhe volta à cabeça. Mais tarde, quando, pela primeira vez, o viu e, junto deste, despertou para a sua primeira paixão – ah, Francisco, quantas saudades! – descobriu o porquê de tal adoração. As fotos do mar e de veleiros, recortados de velhos jornais, que devotamente colava nas paredes graníticas, com auxílio de uma cola feita à base de farinha de milho e água, atestava essa atracção. Aliás, ainda hoje o mar exerce uma extraordinária influência sobre si, sendo aí que se refugia quando as forças lhe faltam e a melancolia a assalta. Aí recobra energias e recorda, simultaneamente, o quanto aí amou e foi amada. O ambiente proporcionado pela praia deserta, principalmente no Inverno, quando o sol espreita e aquece, nem que seja por breves instantes, o frio cortante, serve de catarse.

A casa moldava-se bem às intenções de Teresa. O seu espírito inconformado necessitava do ar que aí se respirava como pão para a boca. Houve, desde que aprendeu a gatinhar e a pronunciar as primeiras palavras, um processo de enamoramento com a zona envolvente. A configuração e a forma como se movimentava pela casa e cercanias era muito importante. Os pequenos percursos, feitos no Inverno, e os mais distantes, calcorreados no Verão, se falassem, contariam estórias de trabalho e conforto, de alegrias e tristezas. Estórias que acabaram por transformar o seu universo habitacional em múltiplas viagens inspiradoras e, hoje, revisitadas em roteiros mais intimistas.

 

(continua)

publicado por Hernani de J. Pereira às 19:48

Análise do quotidiano com a máxima verticalidade e independência possível.
hernani.pereira@sapo.pt
Outubro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
14
16

19
22
23

24
30

31


arquivos

Julho 2024

Junho 2024

Maio 2024

Abril 2024

Março 2024

Fevereiro 2024

Janeiro 2024

Novembro 2023

Outubro 2023

Setembro 2023

Agosto 2023

Julho 2023

Junho 2023

Maio 2023

Abril 2023

Março 2023

Fevereiro 2023

Janeiro 2023

Dezembro 2022

Novembro 2022

Outubro 2022

Setembro 2022

Agosto 2022

Julho 2022

Junho 2022

Maio 2022

Outubro 2021

Setembro 2021

Agosto 2021

Julho 2021

Junho 2021

Maio 2021

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

pesquisar
 
subscrever feeds
blogs SAPO