Comemora-se hoje o primeiro centenário da implantação da República. E, apesar, do tom festivo que o governo, desaforadamente, quis associar à efeméride, o certo é que não comungo da maioria das ideias ultimamente propaladas. À viva força querendo-nos fazer crer que em 5 de Outubro de 1910 se terminou com uma monarquia corrupta e se deu início a uma república redentora. Nada de mais falso.
Mas vamos por partes. Em primeiro lugar, com a finalidade de esquecermos a profunda crise que nos abala e, fundamentalmente, do brutal pacote de austeridade com que nos mimoseou e nos garroteia, José Sócrates fez andar, neste dia, todos – e se mais houvesse, até fontanários inaugurariam - os membros do seu executivo em (re)aberturas de escolas e centros educativos (novo nome para a mesma realidade), os quais já foram objecto de “corte de fitas” por inúmeras vezes. Ora, tal só teria sentido se na I República tivesse havido um extraordinário desenvolvimento da educação. Todavia, não foi isso que efectivamente se passou, e os historiadores aí estão a recordá-lo. Bem pelo contrário. Tendo em conta a taxa demográfica entre 1910 e 1926, o esforço de escolarização regrediu.
Em segundo, para além das inúmeras lutas políticas, a maior parte delas autenticamente sanguinárias, em que o assassinato era o “pão-nosso de cada dia”, os governos da I República, principalmente, o chefiado por Afonso Costa, distinguiram-se na luta contra a Igreja, asfixiando, inclusive, a liberdade de expressão, sendo que de democratas muito pouco possuíam. Basta, para isso, recordarmo-nos dos deputados do Partido Republicano Português (PRP), eleitos para a Assembleia Constituinte, e que, sem se submeterem a novo sufrágio, foram designados para a legislatura seguinte. Ou, então, da readaptação do lema “república para os republicanos”, substituindo o anterior “república para os portugueses”, este proveniente das lutas realizadas durante os últimos tempos da monarquia. Ou, ainda, da proibição total das mulheres exercerem o seu direito de voto. E outros exemplos podiam aqui citar-se.
Voltando aos tempos modernos, a verdade é que o governo PS está, sem margem para dúvidas, a fazer ao país o que os sucessivos governos da I República, e principalmente o PRP, chefiado pelo aludido Afonso Costa, fizeram. Enorme endividamento do país, défices gigantescos, insegurança geral e o fim das escolas de qualidade, com a consequência de proporcionar um ensino cujo sucesso é apenas meramente estatístico.
Já agora e a talhe de foice, acompanho desde há pouco as cerimónias em Lisboa. Para além do dinheiro gasto em cantorias, encenações e deslocações, o que em tempos de tão grave crise é, no mínimo, estuporadamente infeliz, sinto-me enxovalhado pela autêntica lavagem ao cérebro proporcionada pelos repórteres da RTP, verificando-se que a sua única fonte é a cartilha socialista e jacobina. Pouca-vergonha: leiam e informem-se devidamente para, posteriormente, poderem falar algo que valha a pena ouvir.
Entretanto, só espero que não surja um novo António de Oliveira Salazar. Ou será que era um dia de sorte?