O meu ponto de vista

Julho 22 2014

Já lá diz o nosso povo “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. É o que acontece com a aludida Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) dos candidatos a professores, a qual tanta celeuma tem dado nos últimos meses, mas sobretudo nos últimos dias, com o culminar de mais uma série de incidentes no dia de hoje.

Exame instituído pela ex-ministra de Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues, e por isso constante do Estatuto da Carreira Docente, só agora se concretizou mercê de dois factores: vontade expressa de Nuno Crato e inoperância dos socialistas. Estes, porém, para além de a terem introduzido como forma legal de acesso à carreira, vêm agora, de forma despudorada, afirmar que são contra, mas sem terem coragem de adiantar que tal deve ser expurgada da lei.

Voltando ao dia de hoje há a realçar os seguintes aspectos:

  • O MEC ao anunciar a data da prova para esta altura e, principalmente, com cinco dias de antecedência – três dias úteis -, apesar de cumprir escrupulosamente a lei, revelou má-fé e algum receio no confronto com os opositores – não confundir com a maioria dos docentes do quadro.
  • Pelo seu lado a Fenprof, depois de ver os tribunais retirarem-lhe a razão e permitindo a realização daquela, continuou a sua contestação – também não é novidade – a tudo e a todos os que não comungam com as suas ideias estalinistas da educação. Imaginam o que diriam do MEC se este contestasse na rua e prosseguisse com as suas propostas depois de qualquer tribunal o impedir de tal?
  • As acções – infelizmente poucas – de alguns pseudo-professores ao tentarem impedir que outros, livremente, pudessem realizar o mencionado exame, invadindo escolas, fazendo barulho, agredindo funcionários, com a conivência vergonhosa da PSP, só mostra à saciedade que aqueles jamais possuem capacidade e, acima de tudo, sentido de urbanidade para serem professores. Esqueceram-se facilmente daquela máxima que diz: “a minha liberdade termina quando começa a do outro”.
  • Como se viu pelas imensas reportagens que as diversas televisões transmitiram, de entre os contestatários, muitos havia que não eram professores. Aliás, sem um pingo de vergonha na cara, declararam, em frente das câmaras, que estavam ali por solidariedade, uma vez que este governo estava a dar cabo do estado social, tanto a nível da educação, saúde, justiça, blá, blá, blá. A cassete de sempre!

Resumindo, tal como aconteceu noutras ocasiões – lembram-se da pouca vergonha que foram as peripécias encetadas no dia 10 de Junho? -, também hoje a larga maioria dos professores, de modo algum, se revê nestas formas de luta.

publicado por Hernani de J. Pereira às 20:44

Julho 18 2014

Agora que começam as férias para a grande maioria dos portugueses, as manifestações e, sobretudo, as greves entrarão em stand by. Não quero dizer que não possa haver um outro sinal de incómodo, mas nada de preocupante. Por exemplo, ainda hoje vi, no telejornal, uma reportagem sobre uma concentração à porta do ME, a qual não contava com mais que meia dúzia de pessoas.

Voltando às verdadeiras manifestações e, principalmente, às greves, é enternecedor ver a argumentação usada pelos sindicatos e, já agora, até por algumas ordens. Está na moda alegar que é em defesa da escola pública, do SNS, de uma proximidade da justiça junto das populações do interior, respectivamente no caso dos professores, médicos/enfermeiros e advogados. Podia estender o exemplo a muitos outros sectores como a CP/Metro/STCP, onde os seus funcionários afirmam sempre que as suas lutas são sempre em defesa dos utentes.

Tal como dizia o outro dia, no Público, o jornalista João Miguel Tavares, estes sindicalistas são uns autênticos samaritanos. Aliás, acrescento que com estas intenções fazem inveja aos feitos da Madre Teresa de Calcutá, pois jamais lutam pelos seus interesses. Bem pelo contrário: as suas acções têm como objectivo primordial o interesse dos outros. E com propósitos políticos? Isso nem é bom falar, uma vez que nunca tal lhes passou pela cachimónia.

Esquecem-se, ou melhor, fazem-se esquecidos que cada vez que encetam este tipo de luta, quem mais sofre são sempre os que menos podem, i.e., aqueles que não têm acesso aos bons colégios, aos hospitais privados, aos melhores advogados ou que não possuem viatura própria.

P.S. – Que fique bem claro que não sou contra o sindicalismo e o direito à greve é inalienável. Contudo, como tudo na vida, tudo se quer q.b. e a agenda partidária, independentemente do seu pendor, deve estar totalmente arredada.

publicado por Hernani de J. Pereira às 21:18

Julho 15 2014

O guia esclareceu-nos, ainda que de forma breve, o objectivo da viagem. Antes, porém, ainda deambulámos pelas estreitas ruas da única cidade da ilha. Contudo, à medida que avançámos o casario vai-se tornando escasso.

O trilho vai acentuando a dificuldade da caminhada, mercê de elevações e vales que se sucedem a um ritmo que julgávamos não existir. Por vezes o verde intenso é rasgado pelo negro do basalto.

Contornamos a ilha da direita para a esquerda, isto é, em sentido contrário ao do outro grupo. Algures haveríamos de nos cruzar. Logo a seguir atravessamos uma ribeira cavada no negro e pontiagudo basalto. A água, não sendo muito abundante, corre por entre as rochas e a vegetação frondosa, o que nos fez, de certo modo, lembrar um recanto qualquer de Gerez.

Lá longe descobrimos um outro grupo de exploradores-caminhantes. Reduzidos a pontos minúsculos, por via da distância que nos separa, observamos que vão equipados tal como nós. As fotos continuam a um ritmo muito intenso, o que obriga amiúde à troca dos respectivos rolos.

Avançamos a uma boa velocidade por entre e por baixo de uma manto vegetal verde. O Sol, parecendo querer brincar connosco, aparece e desaparece por entre as ramagens das árvores centenárias. Viramos à esquerda e tornamos à direita. O guia dirige-nos por uma estreita estrada de saibro escuro e diz-nos orgulhoso que, dentro de momentos, iremos desfrutar da mais espectacular paisagem do mundo. Com toda a certeza que exagera, mas a ver vamos.

O silêncio é total.

 

(Continua)

publicado por Hernani de J. Pereira às 20:32

Julho 11 2014

O futebol, de certo modo, tem-nos ocupado a agenda e, a não ser o caso BES, bem podíamos dizer que politicamente Portugal já entrou em silly season, o que, estou certo, o governo agradece.

Por meio lá aparece uma outra manifestação(zita), como a de ontem, promovida pela CGTP, mais para mostrar que está viva do que propriamente para demonstrar a sua força e muito longe de querer demover alguém dos seus intentos.

Neste contexto, nada melhor que divagar, tanto mais que o tempo não é convidativo a passar da palavra aos actos. Os desafios voltar-se-ão a colocar em Setembro próximo, aquando da rentrée e, sobretudo, quando em Outubro o governo apresentar, para 2015, o Orçamento de Estado.

Por agora, à falta de melhor, apenas o diálogo escutado, ontem, à mesa do café:

- Então, Felix, como tens passado? Caramba, até pareces outro! Estás mais novo, mais jovial, com uma cara renovada, com um sorriso de orelha a orelha! Ou muito me engano ou há moira na costa.

A resposta, bem-humorada, não tardou:

- Oh Arlindo, tu sabes muito bem como sou. Nada disso. Quando ando com problemas, apresento-me acabrunhado, de queixo caído, triste, olhar mortiço e, pior ainda, desinteresso-me por tudo e nada me satisfaz.

E, depois de uma curta pausa, para sorver para uma boa golada de cerveja, continuou:

- Agora sinto-me, como dizem os nossos amigos brasileiros, com o astral em cima, qual Fénix renascida das cinzas.

Entretanto, como tinha acabado de ler o jornal, e outros afazeres me esperavam, paguei o café e abandonei o local sem ouvir o resto da conversa. Será que perdi algo substancial?

publicado por Hernani de J. Pereira às 20:21

Julho 09 2014

Hoje recebi um telefonema que, sinceramente, não esperava. Paulo Bento, de férias fora do país – pediu-me para não divulgar o local e eu cumpro a promessa -, ligou-me por causa dos meus textos publicados em 23 e 27 de Junho p.p., e algo revoltado, para não dizer indignado, indagou do porquê de não escrever nada sobre o resultado da partida de ontem entre o Brasil e a Alemanha.

E continuou:

- Então, quem não sabia nada de futebol era aqui o “je”, que fiz uma selecção de interesses, onde os jogadores mais pareciam que estavam numa passagem de modelos, do que a trabalhar afincadamente para jogarem verdadeiro futebol?

Sem me deixar falar, de imediato, acrescentou:

E do Filipão e a da sua excelente equipa de ontem, tu e todos os outros comentadores de bancada, agora, não dizem nada?

Depois de o deixar desabafar, lá consegui dizer:

- Oh Paulo, sem querer contrariar-te, é muito diferente ser eliminado na fase de grupos do que numa meia-final.

Retorquiu, desta vez, elevando a voz:

- Pois é, mas apanhar na “pá” quatro ou sete também é muito diferente. Jamais uma equipa, por mim orientada, foi derrotada por tão extensa goleada. Mais: neste momento até posso dar-me ao luxo de pensar que, afinal, somos melhores que o Brasil.

Aqui, sem outros argumentos, disse-lhe que era capaz de ter alguma razão, concluindo a conversa desejando-lhe a continuação de boas férias.

publicado por Hernani de J. Pereira às 20:11

Julho 08 2014

À nossa frente surgia uma outra ilha, esta completamente diferente de todas as outras que compõem o arquipélago. A aridez que caracteriza a maioria das ilhas dava lugar a um chão húmido proveniente de uma vegetação que, não sendo densa, era, em comparação, luxuriante. Daí o genuíno espanto de todos.

A manhã estava calma e clara naquela nova ilha. A luz do Sol reflectia-se nos vales e encostas verdejantes. A temperatura, mais amena, era afagada por uma brisa serena.

Após atracarmos num pequeno e modesto molhe, reentramos em cena com um autêntico ataque ao almoço. A cachupa, prato tradicional à base de milho, carnes e enchidos de porco, algo que se pode comparar à nossa feijoada, foi a refeição servida, a qual foi completada com papaia acabada de colher. A cerveja, por sinal bem fresca, foi a bebida que ajudou a digestão. Teríamos preferido vinho, mas …

Findo repasto, eis-nos a verificar o nosso equipamento, pois o reconhecimento desta ilha esperava-nos. Um resguardo, algumas bolachas e, sobretudo, água, tudo foi convenientemente acomodado na pequena e leve mochila de cada um.

Desta vez o cenário confunde-se com o palco. É a ilha de Santo Antão em todo o seu esplendor. Dividimo-nos em dois pequenos grupos de quatro pessoas cada. A missão do primeiro é a exploração da região ocidental da ilha. Já o segundo tinha como objectivo a parte oriental. Calhou-me este último.

 

(Continua)

publicado por Hernani de J. Pereira às 20:35

Julho 07 2014

Há quem defenda que com o avançar da idade as memórias se avivam. Talvez seja verdade. Todavia, mito ou realidade, o que importa são as recordações que assaltam os meus dias neste Verão tristonho e propício à meditação.

O palco era azul do mais intenso que já tinhamos visto. Estávamos a meio caminho entre o continente africano e o americano. Para trás tinha ficado o cenário majestoso de uma ilha esculpida por vulcões milenares. O agreste dos penhascos contracenava com a paisagem rude, de um amarelo ocre constante, mesmo nos vales mais profundos.

Entramos em cena, quais novos exploradores, armados de máquinas fotográficas – ainda de rolo, entenda-se – e com um único propósito de viver a natureza, conhecendo-a e preservando-a. Há uns bons minutos que somos escoltados por um numeroso grupo de acrobatas e brincalhões cetáceos que nos desafiam com os seus saltos e repentinas mudanças de velocidade.

Estamos todos com os olhos postos no mar explorando o azul oceânico até à linha de horizonte. O experimentado mestre do Mãe Negra, Nho Nilita, vai dando algumas informações - usando uma mistura de português e crioulo - sobre a navegação, enquanto o Sol vai mostrando, cada vez mais, a inclemência própria dos trópicos, brilhando na fraca ondulação.

Cruzamos as ondas suaves. A pouca distância avistamos um outro barco, desta vez com turistas holandeses. Parado e envolto por um conjunto de golfinhos e de improvisados mergulhadores que com eles nadam e trocam afectos. Acenam-nos radiantes como que a convidarem-nos para partilhar uma experiência que é seguramente fantástica e inolvidável.

Pouco tempo depois, de súbito, a nossa marcha é interrompida. O silêncio repentino é apenas cortado pelo bater das pequenas ondas no casco do barco. Em surdina, Nho Nilita aponta o objectivo.

 

(Continua)

publicado por Hernani de J. Pereira às 21:21

Julho 03 2014

É sintomático. Não há ministro da educação, por muita borrada – não peço desculpa pelo termo pouco prosaico, pois quero-o forçosamente usar - que tenha feito, que, passados meses ou breves anos, não venha com estudos e teorias sobre a educação, sobretudo fazendo, ainda que sub-repticiamente, a análise – sempre muito boa ou excelente – sobre o período em que exerceu funções.

A ex-ministra, Maria de Lurdes Rodrigues, também não é excepção. Ei-la com uma investigação de cerca de mil páginas intitulada 40 Anos de Políticas em Portugal: A Construção do Sistema Democrático de Ensino, onde para além do seu testemunho – a parte de leão, como é óbvio - está descrito o pensar, ainda que minimalista, da maioria dos ministros da educação pós 25 de Abril.

Não se questiona o direito de alguém analisar o seu percurso e, principalmente, apregoar até à saciedade aquilo que fez de bem. Todavia, não é curial esquecer neste exame os aspectos negativos, a contestação, das maiores alguma vez vistas e sofridas, e a pouca clarividência denotada aquando do exercício do cargo.

Até parece sina: os nossos políticos são uns autênticos luminários antes e particularmente depois de saírem dos governos. Porém, aquando da sua gestão, não digo que sejam uns asininos, mas quase.

Depois, se não fosse o ridículo da situação, até dava para rir. Refiro-me, concretamente, à acérrima defesa da escola pública. Vindo de quem vem é algo para dizer “bem prega Frei Tomás …”

publicado por Hernani de J. Pereira às 20:04

Julho 02 2014

Soube-se hoje que a maioria das pessoas, cerca de 70 %, que viaja é composta por estudantes, desempregados e pensionistas, tendência que tem vindo a aumentar nos últimos dez anos.

O estudo, com a marca credível da Fundação Francisco Manuel dos Santos, vem demonstrar o que todos aqueles que se encontram no activo há muito sabiam. Trabalham e não conseguem ficar com o capital mínimo para passar umas simples férias ou mesmo passear no país. Os brutais impostos a que se encontram sujeitos são de tal monta que pouco lhes resta. E, ainda por cima, não são para seu benefício directo e muito menos para acautelar o seu futuro, mas sim para que aqueles que nada produzem possam gozar “à grande e à francesa”.

Todos sabemos que o consumo é absolutamente necessário para vitalizar a economia. É dos livros e, por isso, irrefutável. Todavia, que sejam os portugueses não activos a dinamizarem a economia nacional mercê das pensões e subsídios que auferem – algumas delas extremamente chorudas – é que não concordo.

Sou contra a supressão de regalias e privilégios que alguns – diga-se, em abono da verdade, que não são assim tão poucos quanto isso - têm, desde que todos os outros, conforme os seus descontos, também deles possam usufruir.

publicado por Hernani de J. Pereira às 20:21

Julho 01 2014

Sim, confesso que, ultimamente, ando deprimido e não é pouco. Têm de concordar que o caso não é para menos, pois não há direito de, dia após dia, perder milhares sobre milhares de euros. Tudo por causa da crise do Banco Espírito Santo (BES) e do muito dinheiro que, em acções, aí investi.

Sempre fui amigo da família Espírito Santo, apesar de nunca ter passado férias conjuntamente com o Ricardo, tal como aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa, ou de alguma vez ter estado casado com um membro daquela ilustre família – com toda a certeza, culpa minha – como sucedeu com Miguel Sousa Tavares. Porém, isso, de modo algum, diminui a consideração que sinto por aqueles e eles por mim. Já agora, uma interrupção: compreende-se a escolha extremamente cuidadosa das palavras sobre este caso destes dois pesos pesados da comentação política-económica.

Pelo exposto, não admira que tenha adquirido milhares de acções daquela instituição bancária. Se por um lado o BES era um banco com mais de 150 anos de existência e uma credibilidade inatacável – lembro-me de alguns episódios menos dignificantes, mas não se fala mal dos amigos em público -, por outro, o excesso de liquidez monetária que desde há muito apresento, levou-me a apostar quase tudo no mesmo “cavalo”.

Se foi errado? É fácil dizer hoje que sim. Mas quem previa tal? Agora ando a tentar “apagar fogos” em vez de ter antecipado os problemas. Só me apetece gritar e comer ameixas verdes!

Ironias à parte, há muito que deviam estar incorporadas as medidas que actualmente parecem estar acordadas, bem como outras que aqui não posso – novamente os laços de amizade a impedir-me a imparcialidade (!!!) – enunciar. Ou seja: o acordo que Banco de Portugal quer implementar no BES, sendo positivo, é tardio e, quase me atreveria a dizer, imperfeito. Não podemos estranhar, pois geralmente é sempre assim quando se negoceia sobre pressão.

Mais: estão enganados os que pensam que as mexidas na direcção do BES vão ter um grande impacto na resolução da sua crise. A ajuda será efectiva mas diminuta e a prová-lo aí estão as agências de rating a baixar o respectivo valor, isto para não falar do preço das respectivas acções.

Uma revolução neste banco é urgente, uma vez que o contágio a outros não é algo descartável. Para observar que este é um problema sério, indago: quem em Portugal não depende do sistema bancário?

publicado por Hernani de J. Pereira às 20:45

Análise do quotidiano com a máxima verticalidade e independência possível.
hernani.pereira@sapo.pt
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